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  • Foto do escritorMenina de Vidro

Ansiedade: há tempo para tudo

Atualizado: 11 de abr.



Estava sentada, de frente para o Congá, aguardando minha vez de ser atendida no Centro de Umbanda que frequento “espordadicamente”, há quase dez anos. Tenho o costume de aproveitar o momento de espera para ouvir os pontos tocados no atabaque, observar as pessoas (imaginando a história que levou cada uma até ali), fazer minhas preces e ir mentalizando o que eu gostaria de conversar com a entidade.


Naquele dia, porém, eu não conseguia fazer nada disso. Permanecia calada, em respeito ao ambiente, mas, por dentro, sentia-me como um vulcão em erupção. A mente agitada e o coração acelerado anunciavam que a ansiedade havia chegado em um nível insustentável, por algum motivo que eu nem sabia bem qual era. Naquele momento, percebi que não estava bem. Precisava de ajuda, mas talvez não conseguisse organizar meus pensamentos diante da entidade. Se eu fosse seguir a lógica do “pedi e dar-se-vos-á”, estaria lascada. No estado de agitação em que me encontrava, eu não conseguia concatenar as ideias, muito menos expressá-las. Fazer um pedido, então?


O Pai de Santo me chamou. Havia chegado minha vez. Foi o tempo de pensar: Deus, me ajuda com o que seja lá que eu preciso.


Era dia de reunião de Exu.  Fui direcionada a uma Pomba Gira. Ela estava linda, perfumada, sentada no chão, toda charmosa, com sua saia rodada. Olhou para mim e sorriu. Aquele sorriso meio cúmplice, meio debochado, emoldurado por um chamativo batom vermelho.


Era Maria Rosa dos Ventos o seu nome. Ela não falou nada. Pegou minhas mãos e parecia ler, como uma Cigana. Me olhou, sorriu novamente e colocou nas minhas mãos uma cumbuca de coco, cheia de água, que ela energizou antes de me entregar.


- Beba em três goles, para se acalmar. A cada gole, mentalize um desejo. Depois vou aplicar um passe.


Estava tão ansiosa que nem lembro exatamente o que desejei. Acho que foram necessidades básicas, genéricas, mas que, sem as quais, a gente ta ferrado nesta vida: paz, saúde, harmonia e prosperidade para mim e para minha família.


- Vish! Acho que fiz mais do que três desejos.

Ela riu da minha preocupação.

- Não tem problema, minha flor… Você pode ter quantos desejos quiser! 

Enquanto recebia o passe, aplicado por ela de forma muito peculiar, me tocando com um botão de rosa vermelha, tentei me concentrar. Em vão. O máximo que consegui foi me lembrar daquele sorriso aberto. “Por que mesmo que a gente leva a vida tão a sério?!”, pensei. ‘Talvez rir e exaltar nossa feminilidade, como as pombas-giras fazem tão lindamente, seja um bom remédio para deixar a vida mais leve’. 


- Como posso lhe ajudar no dia de hoje? - Interrompeu com delicadeza meus devaneios.

- Tenho estado muito agitada.

- Eu vejo. Mas por quê? Você não percebe que há tempo de plantar, e tempo de colher? Também há tempo de descansar, sabia?!

- Pois é… meu corpo realmente tem me pedido descanso. Já meu coração tem me pedido para fazer alguma coisa que me dê prazer. Por fim, minha mente diz que preciso me dedicar ao que vai me dar mais condições no futuro. Ou seja, vivo em um constante fogo cruzado.

- É só isso mesmo que sua mente diz?

- Na verdade, às vezes ela também se contradiz. Nessas horas, eu me questiono sobre o que realmente é prioridade para mim e o que é crença assimilada sobre uma suposta necessidade ou até valor do sacrifício. Mas então lembro que ainda tenho sonhos para realizar e conquistas para alcançar e o conflito se instala. Fico tão perdida no meio dessa confusão, que eu não consigo nem descansar, nem fazer o que eu gosto, muito menos me dedicar ao que eu supus ser necessário para chegar onde eu idealizei. Mas, agora que verbalizei sobre esse conflito, suspeito que ele tenha a ver com essa minha agitação e ansiedade exacerbadas.

- Você se cobra e se pressiona, como a panela que vocês usam aí embaixo. Mas seu corpo não é projetado para ser uma panela. Se não aliviar hoje, amanhã ele vai desregular. Aí vem uma pressão alta, ou outras doenças com as quais vocês não precisariam lidar.

- Mas como ficam meus sonhos, Rosa dos Ventos? 

- Você já não realizou tantos? 

- Verdade. Realizei sonhos que eu sequer sabia que tinha. 

- Você já os usufruiu? Vocês aí na Terra querem conquistar, e não digo que está errado. Estão numa experiência material. Mas as conquistas materiais são insaciáveis. O que acontece quando se atinge um objetivo?

- Passamos a buscar outros. 

- E outros. E mais outros. Mas se o tempo é de colher, não adianta buscar outros. Então acalme o coração. Você vai realizar cada um dos seus sonhos, pois são dignos e justos. Mas no tempo certo. Agora o tempo é para usufruir o que você já conquistou. 

- É que surgiu uma oportunidade, que parece resolver tanta coisa. Eu só não to conseguindo me dedicar a ela, mas se conseguisse...

- Não importa se a oportunidade parece boa, atraente. Ela pode ser incrível, mas, se não veio no seu momento, não é para você. Compensa forçar a máquina até ela quebrar? Você disse que seu coração queria fazer coisas que gosta. O que você quer fazer?

- Ah, tenho uma lista enorme. Mas, por hora, me contentaria em fazer as coisas mais simples, como estar mais com minha família, tomar um café da manhã com tempo, passear com meu marido, mimar meus gatos, escrever…

- O que te impede?

Silêncio… 

- Obrigada por me ajudar a decifrar o que eu estava sentindo. 

- Buscai e achareis. Não é assim que funciona? E não se preocupe: dificilmente a gente saberá o que ou como pedir. O Homem Grande sabe. Ele sabe de tudo!


Ela então sorriu, me deu uma rosa e nos abraçamos. Levantei e guardei minha flor. Saí do centro, reuni minha família e fomos tomar sorvete…


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