Daqui a pouco eu pergunto

Eu me importei com o que ela estava vivendo. Só me esqueci de fazer com que ela soubesse disso

Hoje comecei meu expediente como começo tantos outros dias de trabalho: abrindo o WhatsApp.
Como parte da equipe trabalha em home office, nossos grupos acabaram se tornando uma espécie de corredor virtual. É por ali que a gente se encontra, dá bom dia, distribui tarefas, tira dúvidas, resolve problemas e descobre o que aconteceu enquanto estava longe.
Quando entrei, havia várias mensagens esperando por mim. Entre elas, a de uma colega.
Ela contou que havia passado a noite no hospital acompanhando um familiar, em crise de cálculo renal. Ainda fariam alguns exames e, por isso, talvez ela não conseguisse acompanhar uma atividade de trabalho prevista para aquele dia. Perguntou se alguém poderia substituí-la.
Li e imediatamente pensei: “Nossa! Será que está tudo bem?”
Já tive uma infecção urinária que chegou aos rins e me lembrei de como aquilo foi doloroso. Pensei em chamar minha colega no privado, perguntar pelo familiar, contar um pouco da minha experiência, caso pudesse ajudar em alguma coisa. Perguntar também como ela estava depois de uma noite no hospital.
Eu faria isso. Daqui a pouco.
Porque, enquanto pensava nela, chegaram outras mensagens. Uma pendência. Outra solicitação. Alguma coisa que precisava ser respondida. Outra que precisava ser resolvida.
No meio delas, voltei rapidamente à mensagem da minha colega e fiz o que cabia naqueles poucos segundos: 👍
Na minha cabeça, aquele joinha queria dizer:
“Eu vi!”
“Estou aqui!”
“Conte comigo!”
E continuei trabalhando.
Pouco depois, minha chefe perguntou no grupo se alguém teria disponibilidade para assumir a atividade. Respondi que nunca havia acompanhado aquele tipo de ação, mas poderia ajudar.
Minha colega então me ligou para explicar o que eu precisaria fazer. Conversamos sobre o trabalho, ela me passou as orientações, explicou os detalhes e, curiosamente, fez questão de me tranquilizar. Disse que continuaria disponível pelo celular, caso eu precisasse de alguma coisa. Só não estaria diante do computador.
Foi enquanto a ouvia que alguma coisa começou a me incomodar: ela havia passado a noite em um hospital. E estava me tranquilizando.
De repente, aquele joinha que, dentro da minha cabeça, significava “conte comigo” me pareceu terrivelmente pequeno.
Porque eu tinha me importado. De verdade. Tinha pensado nela, na irmã, tinha lembrado da minha própria experiência. Tinha imaginado que talvez pudesse ajudá-la!
Só havia um problema: ela não tinha como saber de nada disso. Meu afeto tinha ficado preso dentro da minha cabeça.
Então pensei em quantas vezes fazemos isso...
“Daqui a pouco eu respondo.”
“Depois eu ligo.”
“Quando terminar isso, pergunto como ele está.”
“Assim que eu tiver um tempinho, mando uma mensagem.”
Não necessariamente porque somos indiferentes. E talvez seja justamente isso que torna tudo mais assustador.
Somos pessoas que amam, que se preocupam, que percebem a dor do outro. Mas também somos pessoas cercadas por notificações, prazos, tarefas, compromissos e pequenas urgências que chegam uma atrás da outra exigindo: “Eu primeiro!”
E aquilo que não grita acaba esperando. Só que, às vezes, o que deixamos para depois não é uma tarefa. Do outro lado da tela, pode existir alguém atravessando uma noite difícil enquanto nós estamos genuinamente preocupados com ela, só que em silêncio.
É claro que não conseguiremos estar disponíveis o tempo inteiro. Também carregamos nossos problemas, nossas famílias, nossos medos, nossas noites mal dormidas. Há dias em que mal conseguimos dar conta de nós mesmos. Mas talvez justamente por isso um “como você está?” seja tão importante.
Ele não resolve uma crise renal, não substitui uma noite de sono, não elimina um problema familiar. Às vezes não resolve absolutamente nada, mas lembra a quem está atravessando tudo isso que existe alguém do outro lado.
Então voltei mentalmente ao meu joinha.
É curioso como um símbolo tão pequeno pode carregar significados tão diferentes.
Para mim, significava: “conte comigo.” Mas comecei a pensar que algumas coisas importantes demais não deveriam depender de interpretação. Afeto talvez seja uma delas.
Há preocupações que precisam sair da nossa cabeça para conseguir chegar ao coração de alguém. E talvez a vida esteja ficando rápida demais justamente nos lugares em que deveríamos aprender a nos demorar um pouco mais.
As demandas continuarão chegando. Os grupos continuarão piscando. Sempre haverá alguma coisa urgente esperando resposta.
Mas, da próxima vez que eu pensar “daqui a pouco eu pergunto como ela está”, espero me lembrar daquele pequeno joinha. E perguntar agora.



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