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Entre um ponto e outro

Foto do escritor: Menina de Vidro
Menina de Vidro
há 2 dias
3 min de leitura

Atualizado: há 22 horas

Eu não comprei o que ele vendia. Ainda assim, nós dois saímos daquele encontro com alguma coisa


Jovem com fone de ouvido olha pela janela do ônibus o entardecer na cidade de grandes prédios

Hoje, dentro do ônibus, a caminho do trabalho, uma voz masculina interrompeu meus devaneios. Não entendi ao certo o que dizia, mas, acostumada aos alertas de quem vive em uma cidade grande, tratei de prestar atenção ao que acontecia ao meu redor.


Vi então um rapaz percorrendo o corredor do ônibus, tentando se equilibrar entre os solavancos enquanto carregava uma sacola grande, cheia de caixinhas. Conforme ele se aproximava, entendi: vendia fones de ouvido.


Quando chegou até mim, vivi um pequeno dilema que provavelmente ninguém percebe do lado de fora, mas que, dentro de mim, às vezes assume proporções enormes:

tenho dificuldade de dizer não.


Não sei exatamente quanto disso vem da minha criação, do hábito feminino de tentar ser sempre gentil e agradável ou, nesse caso, do desconforto que sinto diante de alguém que precisa entrar de ônibus em ônibus oferecendo alguma coisa para ganhar a vida.


É um trabalho digno. Muito digno. Mas não deve ser fácil. Talvez por isso, quando alguém me oferece um chiclete, uma pipoca, um chaveiro ou qualquer outra coisa que eu não queira comprar, uma parte de mim imediatamente começa a fazer contas que não têm nada a ver com dinheiro.


"Será que a pessoa vai ficar chateada?"

"Será que eu deveria comprar só para ajudar?"

"Mas eu preciso comprar alguma coisa de todo mundo?"

"E se eu simplesmente disser não?"


É tanto desconforto diante de uma interação de poucos segundos que confesso: algumas vezes já fingi que não vi. É mais fácil olhar para a janela. Para o celular. Para qualquer lugar onde eu não precise encarar a necessidade do outro, nem a minha incapacidade de resolvê-la.


Hoje não fiz isso. Olhei para o rapaz, sorri meio sem graça e agradeci. Não compraria o fone de ouvido e achei que nossa interação terminaria ali.


Mas ele sorriu de volta e disse alguma coisa sobre a minha educação. Não me lembro exatamente das palavras, só me lembro do final:


— Um sorriso desses já vale o dia.


Fiquei sem graça de novo. E, por alguns segundos, ainda pensei: "Isso foi um elogio ou uma cantada?"


Ser mulher também é carregar alguns alarmes no bolso. Até uma gentileza, às vezes, precisa passar por eles antes de chegar até nós. 


Mas o rapaz não insistiu, não tentou prolongar a conversa, não pediu nada além do que já estava oferecendo.


Ele pegou a sacola, desceu do ônibus no próximo ponto e seguiu seu caminho, provavelmente em direção a outro coletivo, a outros passageiros e a muitos outros "não, obrigada" ao longo do dia.


Mas alguma coisa ficou...


Pensei nas tantas vezes em que evitei olhar para alguém porque não sabia lidar com o meu próprio constrangimento. Talvez, enquanto eu tentava não fazer alguém se sentir mal por receber um "não", tenha feito coisa pior: agi como se aquela pessoa não estivesse ali.


E talvez o rapaz tenha acabado de me ensinar que existe uma enorme diferença entre negar uma compra e negar um encontro.


Eu não precisava daquele fone de ouvido. Talvez ele também soubesse disso.

Mas, por alguns segundos, duas pessoas que provavelmente nunca mais vão se encontrar reconheceram a existência uma da outra.


E o mais curioso é que aquele sorriso que, para mim, era quase um pedido de desculpas por não comprar nada, chegou até ele como presente. A gente nunca sabe direito o que entrega aos outros.


Às vezes achamos que estamos oferecendo muito e aquilo mal chega. Outras vezes, oferecemos quase nada (um "bom dia", uma gentileza, um sorriso meio torto) e descobrimos que, do outro lado, havia alguém precisando justamente daquele pouquinho.


Talvez por isso valha a pena olhar. Não porque sejamos obrigados a comprar o que nos oferecem. Nem porque precisemos resolver as dificuldades de todo mundo, não conseguiríamos! Mas porque há uma forma de generosidade que não depende do que temos no bolso.


Por alguns segundos, fiquei olhando pela janela o jovem vendedor que seguia seu caminho...


Eu continuei com o meu dinheiro. Ele continuou com os fones de ouvido. Ainda assim, houve uma troca.


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Ícone da Menina de Vidro. Rosto feminino, com olhos fechados e semblante sereno, constituído por fragmentos coloridos que se dispersam e se agrupam, formando a face a Menina de Vidro

Sobre mim

Jornalista de formação e espiritualista por vocação 🪄

Admiradora de Arte que dá quentinho no coração. 

Neste momento, tentando simplificar a vida, viver o agora e fazer as pazes com as minhas sombras. 🦋

Foco: usar a fé para sair de qualquer buraco! 

 

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© 2024 por Menina de Vidro. 

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