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Nascida com a bunda virada para a lua

Foto do escritor: Menina de Vidro
Menina de Vidro
há 19 horas
5 min de leitura

Disseram que eu tinha nascido com a bunda virada para a lua. Levei mais de vinte anos para entender por que ser chamada de sortuda me machucou.


Lua cheia em um céu azul escuro, com algumas nuvens espaçadas

Eu devia ter uns 16 anos quando ouvi, pela primeira vez, que havia nascido com a bunda virada para a lua.


Não me lembro exatamente do que conversávamos, lembro apenas de quem disse, do tom com que disse e, principalmente, da sensação que aquelas palavras deixaram em mim.


Era uma menina da minha idade. E, aparentemente, ela achava que eu tinha muita sorte.

Curioso, não é? Em geral, as pessoas gostam de ser consideradas sortudas. Afinal, quem não gostaria de acreditar que a vida lhe reserva um lugar especial, de onde as coisas boas chegam com mais facilidade?


Mas aquele comentário me machucou. Na época, eu não soube explicar o motivo.


Talvez porque, aos 16 anos, eu ainda não tivesse aprendido a dar nome a algumas coisas que sentia. Ou porque não soubesse exatamente o que responder a alguém que olhava para minhas conquistas e enxergava nelas uma espécie de privilégio concedido pelo universo.


Guardei o incômodo em algum lugar da memória. E lá ele ficou por mais de vinte anos.


Até que, durante uma sessão de terapia, conversando sobre mérito, merecimento e essas coisas que a gente passa a vida tentando compreender, aquela frase voltou:

Você nasceu com a bunda virada para a lua!


Dessa vez, porém, não veio sozinha. Veio acompanhada do cheiro de café…


***


Era muito cedo. Cinco horas da manhã, talvez um pouco antes.


A casa onde morávamos era pequena e minha mãe evitava acender a luz para não acordar quem ainda dormia. Mas, da cozinha, vinha aquele cheirinho que anunciava o começo de mais um dia.


Quando eu me levantava, o café já estava pronto. A comida também.


Minha mãe havia preparado uma marmita fresquinha para que eu pudesse passar o dia estudando no Cefet. Eu frequentava aulas em dois turnos, e o dinheiro da passagem precisava ser contado com cuidado. Não havia muita margem para imprevistos.


Não sei a que horas ela acordava. Sei apenas que, quando meu despertador tocava, uma parte importante do meu dia já havia sido vivida por ela.


Enquanto eu dormia, minha mãe trabalhava para que eu pudesse estudar. E isso se repetiu de muitas maneiras, durante muitos anos.


Quando comecei a trabalhar e cursar a faculdade à noite, saía de casa antes das sete da manhã. Depois de um expediente inteiro, seguia para as aulas. Voltava quase à meia-noite, com o corpo cansado e a cabeça cheia.


Mas havia um prato de comida me esperando sobre a mesa. E uma cama arrumada.

Pode parecer pouca coisa para quem nunca precisou pensar nisso. Para mim, era quase um milagre cotidiano.


***


Também havia o meu esforço, claro. Houve uma infância em que estudar não era apenas uma obrigação escolar, mas a condição para manter uma bolsa de estudos. Houve madrugadas tentando acompanhar colegas que haviam recebido uma preparação melhor que a minha. Houve provas, renúncias, inseguranças e a sensação frequente de precisar correr mais para chegar ao mesmo lugar.


Quando conquistei uma vaga no Cefet, quando passei numa universidade federal antes mesmo de concluir o curso técnico, quando consegui uma bolsa do ProUni para estudar Jornalismo na PUC, não vi aquelas oportunidades caindo do céu.


Vi páginas e páginas de cadernos. Vi noites mal dormidas. Vi uma menina tentando aproveitar cada aula porque sabia que talvez não tivesse outra oportunidade igual.


Até minhas aventuras na natação exigiram alguma teimosia. Durante meses, treinei a respiração numa bacia de água, no banheiro de casa, até conseguir superar a dificuldade de respirar corretamente durante as aulas do projeto dos Bombeiros.


Imagino a cena vista de fora: uma menina enfiando o rosto numa bacia, repetidas vezes, decidida a aprender a nadar. Talvez alguém achasse graça. Eu estava ocupada demais tentando aprender.


Mais tarde vieram os estágios, a graduação levada a sério, os concursos públicos. E, olhando para trás, percebo que muitas das coisas que os outros chamavam de sorte tinham uma história que ninguém havia presenciado.


Mas há outra coisa que só fui compreender com o tempo: nem tudo foi esforço.


Eu tive uma mãe que acreditou na educação quando ela própria não havia recebido as mesmas oportunidades. Tive também um pai que, noite após noite, caminhava vários quarteirões para me buscar no ponto de ônibus. Talvez não soubesse se todo aquele esforço me garantiria uma vida melhor, mas, enquanto eu tentava construir esse futuro, ele fazia o que podia para que eu chegasse em segurança ao presente.


Tive professores, escolas, projetos e pessoas que, de maneiras diferentes, abriram caminhos para mim.


Tive saúde para enfrentar jornadas difíceis. Tive oportunidades que outras meninas, tão dedicadas quanto eu, talvez nunca tenham encontrado. E houve, certamente, circunstâncias favoráveis que nem sequer sou capaz de identificar.


Então, afinal, onde termina a sorte e começa o mérito?


Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis de responder. Porque, quando olhamos para a vida de alguém, quase sempre vemos apenas um pedaço.


Vemos a aprovação, mas não as madrugadas. Vemos o diploma, mas não a marmita preparada no escuro. Vemos a promoção, mas não as portas que se abriram, ou aquelas que precisaram ser arrombadas.


E, às vezes, vemos alguém que não chegou a lugar nenhum e concluímos, apressadamente, que lhe faltou dedicação. Como se soubéssemos quantas portas encontrou fechadas! Como se conhecêssemos os pesos que carregava! Como se todos estivéssemos disputando a mesma corrida, partindo da mesma linha.


Talvez seja por isso que me incomodem tanto os julgamentos sobre quem merece ou não aquilo que conquistou.


De um lado, há quem trate toda vitória como simples resultado de esforço pessoal, esquecendo as oportunidades e as pessoas que tornaram aquele esforço possível. Do outro, há quem enxergue apenas a sorte ou o privilégio, apagando o trabalho, as escolhas e os sacrifícios de quem chegou até ali. E nós, que gostamos tanto de explicações simples, acabamos transformando vidas inteiras em rótulos: sortudo. Privilegiado. Merecedor. Fracassado. Como se uma palavra pudesse dar conta de uma existência.


Minha espiritualidade acrescenta outra camada a essa reflexão.


Gosto de imaginar Deus não como alguém distribuindo prêmios e castigos conforme suas preferências, mas como uma inteligência que sustenta leis às quais todos estamos sujeitos.


A ideia de que nossas escolhas produzem consequências sempre fez sentido para mim.

Plantamos. Cuidamos (ou não) daquilo que plantamos. E, em algum momento, encontramos os frutos. Mas até essa imagem exige cuidado.


Porque nenhuma semente germina apenas por sua vontade de crescer. Há o solo, a água, o sol, as estações. E talvez estejamos tão acostumados a medir a vida pelo que se pode contar, comprar ou exibir que acabamos esquecendo de reconhecer alguns de seus frutos mais preciosos. Afinal, de que vale uma árvore carregada de frutos se eles não alimentam ninguém?


O aprendizado pode estar justamente em reconhecer o que conseguimos transformar, sem presumir que conhecemos todas as razões daquilo que acontece.


Hoje, quando me lembro daquela menina de 16 anos, consigo compreender melhor sua tristeza.


Ela não queria negar a sorte, queria apenas que alguém soubesse que havia muito mais por trás daquilo que parecia tão fácil.


Queria que enxergassem suas madrugadas, seus medos, seus esforços. E, embora ainda não tivesse consciência disso, talvez quisesse principalmente que enxergassem sua mãe...


A mulher que acordava antes do sol, preparava o café no escuro e deixava uma marmita pronta para a filha levar. A mulher que, sem aparecer nas listas de aprovados ou na fotografia de formandos, estava presente em cada uma daquelas conquistas.


Hoje, penso que tive mesmo muita sorte, mas não exatamente pelos motivos que aquela menina imaginava.


Talvez eu tenha nascido com a bunda virada para a lua.


Só que, enquanto eu olhava para o céu, havia uma família aqui na Terra que acordava antes do sol e atravessava a noite para me ajudar a alcançá-lo. 



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Ícone da Menina de Vidro. Rosto feminino, com olhos fechados e semblante sereno, constituído por fragmentos coloridos que se dispersam e se agrupam, formando a face a Menina de Vidro

Sobre mim

Jornalista de formação e espiritualista por vocação 🪄

Admiradora de Arte que dá quentinho no coração. 

Neste momento, tentando simplificar a vida, viver o agora e fazer as pazes com as minhas sombras. 🦋

Foco: usar a fé para sair de qualquer buraco! 

 

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© 2024 por Menina de Vidro. 

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