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Do lado de fora

Foto do escritor: Menina de Vidro
Menina de Vidro
há 10 horas
5 min de leitura

Atualizado: há 6 horas

Às vezes, basta uma pergunta para descobrir que o lugar ao qual pertencíamos tinha fronteiras invisíveis


Plantinha delicada nasce de uma fresta no concreto, entre luzes do sol e sombras da parede de pedra

Durante muito tempo, acreditei que estava do lado certo. Não exatamente do lado de um partido, mas do lado das pessoas. Das que sofriam injustiças, das que não tinham voz, das que precisavam que alguém se indignasse por elas.


E eu me indignava. Ah, como me indignava!


Se houvesse uma discussão, lá estava eu, pronta para defender minhas convicções. Tinha argumentos, exemplos, referências. E aquela disposição juvenil de quem acredita que, diante de uma explicação suficientemente boa, qualquer pessoa sensata acabará concordando.


A faculdade de Jornalismo havia fortalecido em mim uma preocupação que já trazia de casa: a de não fechar os olhos para o sofrimento humano.


Eu gostava daquele sentimento de pertencimento. Estava cercada de pessoas que, aparentemente, desejavam o mesmo que eu: um mundo mais justo, mais humano, mais livre.


Até que comecei a desconfiar de algumas das nossas certezas...


Não aconteceu de uma vez. Uma leitura levou a outra, que provocou uma pergunta, que desarrumou uma resposta antiga. De repente, ideias pelas quais eu havia discutido até com minha família já não me pareciam tão incontestáveis.


Foi desconcertante.


Eu continuava me importando com as mesmas pessoas, com as mesmas injustiças. Mas começava a duvidar de que os caminhos que defendíamos fossem necessariamente os melhores para combatê-las.


E, ingenuamente, imaginei que poderia conversar sobre isso. Afinal, não era justamente o diálogo uma das coisas que defendíamos?


Não me lembro das palavras exatas da publicação que fiz naquela época. Lembro que expus uma inquietação política no Facebook e que, pouco depois, ela parecia ter adquirido vida própria.


Pessoas com quem eu havia trabalhado anos antes, e que já nem faziam parte do meu convívio, apareceram para perguntar:


— É verdade que você pensa aquilo?


Aquilo o quê?


Era uma sensação estranha. Eu havia escrito algumas palavras na tela de um computador, mas elas estavam chegando a lugares que eu desconhecia, passando por bocas que eu não ouvira, adquirindo sentidos que talvez nem fossem meus.


Uma espécie de telefone sem fio, só que ninguém parecia estar brincando.


Uma antiga professora também apareceu. Não para perguntar o que eu pensava ou por quê. Deixou um comentário na minha página que, em outras palavras, dizia que eu era uma decepção. Que se arrependia de ter me ajudado.


Li aquilo com uma tristeza difícil de explicar. Não era uma desconhecida me insultando. Era alguém que havia participado da minha formação, alguém de quem eu guardava a lembrança de ter recebido apoio. E, de repente, parecia que tudo o que eu havia sido até ali podia ser revisto por causa de uma opinião diferente.


Houve também quem me atribuísse uma responsabilidade terrível: se pessoas fossem assassinadas em nome de uma ideologia, a culpa seria minha, por escolher votar em branco.


Eu lia aquelas acusações tentando reconhecer a pessoa que descreviam. Não conseguia.


Dias depois, fui chamada para uma conversa no trabalho. Minha publicação havia chegado até o governador, segundo me disseram.


A pessoa que me chamou era uma superior. E começou de um jeito que, em outras circunstâncias, talvez me tranquilizasse:


— Estou te falando porque gosto de você.


E talvez gostasse mesmo. Até hoje não tenho razões para descartar a possibilidade de que estivesse tentando me proteger.


Mas havia algo desconcertante em receber aquele aviso embrulhado em carinho. Eu não sabia se deveria agradecer pela preocupação ou me assustar com o fato de que uma opinião publicada fora do trabalho pudesse ter percorrido um caminho tão longo até voltar para mim, em tom de alerta.


O que eu sabia era que não queria passar por aquilo novamente.


Eu havia feito perguntas e recebido acusações, decepções, advertências. Comecei a achar que talvez fosse melhor guardar as próximas perguntas para mim.


Foi assim que aprendi a ficar em silêncio.


Não de uma vez. Primeiro, passei a escolher melhor com quem conversava. Depois, comecei a evitar certos assuntos. Quando alguém perguntava minha posição política, ainda tentava explicar que não me identificava inteiramente com nenhum dos candidatos. Mas a conversa quase sempre parecia exigir uma resposta mais simples:


De que lado você está?


Eu queria dizer que dependia da pergunta.


Queria concordar com uma ideia sem precisar concordar com todas as outras. Queria discordar de uma proposta sem ser confundida com os defensores da proposta oposta.

Queria, sobretudo, poder mudar de opinião quando encontrasse razões para isso.


Mas descobri que, em certas conversas, mudar de ideia parecia menos uma demonstração de aprendizado do que uma confissão de culpa. E eu já estava cansada de me defender.


Na faculdade, havia estudado um fenômeno chamado espiral do silêncio: quando as pessoas temem o isolamento, podem deixar de expressar opiniões que acreditam ser minoritárias.


Lembrei-me da teoria com uma ironia amarga. Eu, que havia escolhido uma profissão dedicada à comunicação, estava aprendendo a não dizer.


Os anos passaram. Continuei lendo, ouvindo, discordando. Às vezes da esquerda, às vezes da direita. Muitas vezes de mim mesma. E fui descobrindo, não sem alguma vergonha, que minha antiga disposição para o oito ou oitenta também precisava de reparos.


Nem sempre o mundo cabe nas divisões que fazemos dele. Nem sempre quem discorda de nós está contra aquilo que consideramos mais importante. Tampouco estamos imunes a cometer injustiças apenas porque decidimos combatê-las.


Talvez essa última descoberta tenha sido a mais difícil. Afinal, eu havia me sentido ferida justamente por pessoas que acreditava comprometidas com o respeito e a dignidade humana.


Mas, se eu queria continuar fiel àqueles princípios, precisava admitir que eles também deveriam valer para quem me feriu. Mesmo quando eu não compreendesse suas atitudes ou não concordasse com elas.


Quase uma década depois, comecei a ouvir, em vozes que eu não esperava, algumas das perguntas que eu havia guardado.


Vi pessoas respeitadas e respeitosas começarem a questionar comportamentos e contradições que há anos me incomodavam. Foi reconfortante perceber que certas inquietações podiam encontrar espaço onde antes eu só enxergava portas fechadas.


Lembrei-me de como me sentira sozinha. De como havia desejado que alguém, em vez de perguntar de que lado eu estava, simplesmente se dispusesse a me ouvir antes de tirar conclusões. E que pudéssemos questionar as certezas uns dos outros sem transformar cada discordância em ofensa.


E pensei em quantas outras pessoas talvez estivessem fazendo o mesmo que eu: guardando perguntas para não perder amigos, oportunidades, pertencimento.


Mas talvez algumas mudanças comecem assim: sem plateia. Talvez aquilo que nos parece imóvel esteja apenas se movendo numa velocidade que nossa impaciência não consegue perceber. 


Sei que o tempo não conserta tudo sozinho. Há injustiças que persistem justamente porque ninguém se dispõe a enfrentá-las. Mas gosto de pensar que algumas conversas, embora interrompidas, podem ser retomadas muitos anos depois. Às vezes por pessoas que nem estavam presentes quando começaram.


Continuo me indignando com injustiças. Continuo desejando um mundo mais humano. E continuo tendo opiniões fortes, embora a vida já tenha me ensinado, algumas vezes de maneira bastante constrangedora, a desconfiar delas. Mas entendi que é possível defender aquilo em que acredito e ainda reconhecer a humanidade de quem acredita em outra coisa.


Durante muito tempo, pensei que meu lugar estivesse entre as pessoas que tinham as mesmas respostas que eu. Quando comecei a fazer perguntas diferentes, senti que havia sido colocada do lado de fora. Hoje, talvez eu esteja aprendendo que não preciso voltar para dentro de lugar nenhum. 


Mas aprender uma coisa não significa conseguir vivê-la sem receio…


Quase dez anos depois de ter escolhido guardar meus questionamentos, aqui estou eu, perguntando-me se devo publicar uma crônica sobre o silêncio.


Uma parte de mim quer compartilhar o que aprendeu. Outra ainda se lembra do preço que pagou por tentar.


Talvez a coragem não seja deixar de sentir medo. Talvez seja aprender a não entregar a ele todas as nossas decisões.


Então se você está lendo estas palavras, é porque, desta vez, resolvi arriscar e deixar a porta aberta para quem ainda queira conversar.



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Ícone da Menina de Vidro. Rosto feminino, com olhos fechados e semblante sereno, constituído por fragmentos coloridos que se dispersam e se agrupam, formando a face a Menina de Vidro

Sobre mim

Jornalista de formação e espiritualista por vocação 🪄

Admiradora de Arte que dá quentinho no coração. 

Neste momento, tentando simplificar a vida, viver o agora e fazer as pazes com as minhas sombras. 🦋

Foco: usar a fé para sair de qualquer buraco! 

 

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© 2024 por Menina de Vidro. 

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